ENTREVISTA COM A DJ E PRODUTORA MARIA ALMEIDA DA FESTA GO EAST


O Bem-vindo à Sérvia tem o prazer de publicar uma entrevista exclusiva com Maria Almeida, uma das produtoras e DJs da festa Go east (em parceria com María Sol Provvidente), que tocou esse ano pela 2ª vez consecutiva no EXIT Festival e que mora atualmente em Belgrado. Ela é, certamente, uma das pessoas mais influentes, que ajudam a disseminar a cultura sérvia e de toda a região dos bálcãs pelo Brasil afora! Uživajte! Aproveitem!

1. De onde surgiu seu amor pela música balcânica?

Meu primeiro contato com a música dos Balcãs e do leste europeu rolou há uns 10 anos, numa festinha que eu e uns amigos fizemos, ainda nos tempos de escola. Na época ainda não rolava muito essa coisa de baixar música pela internet, então pedimos que todos os convidados levassem cds de bandas que gostassem, pra que a gente tivesse o que tocar durante a noite toda. Um dos convidados trouxe pra festa um amigo romeno, que não trouxe CD mas sim uma fita K7 com o que ele nos disse ser "música da Iugoslávia": era, na verdade, a trilha sonora do filme Underground, dirigido pelo diretor Emir Kusturica e trilha assinada músico Goran Bregović, ambos nascidos na atual Bósnia. Lembro que quando colocamos a K7 pra tocar na festa foi um momento meio mágico, absolutamente todo mundo foi pra pistar dançar aquele som que pra gente, na época, era totalmente estranho mas surpreendentemente envolvente, ao mesmo tempo!

Guardamos aquela K7 por anos e um dia me ocorreu pesquisar mais sobre o "tal de Bregović" na internet. E aí foi que a coisa toda começou mesmo pra mim, eu e meus amigos começamos a descobrir uma enxurrada de bandas e referências culturais, foi uma coisa avassaladora pra mim! Fiquei meses pesquisando e lendo tudo o que podia a respeito, e foi por essa época que fui apresentada a Sol e então cismamos que tínhamos que fazer uma festa de música dos Balcãs no Brasil. Ficamos 1 ano inteiro pesquisando e aprendendo como produzir uma festa, consultando amigos DJs e produtores do Brasil e também da cena Balkan Beats européia, fizemos curso pra aprender a discotecar... Enfim, foi uma trabalheira, mas entramos de cabeça mesmo! E em Novembro de 2007 finalmente saiu a primeira edição da Go East, no Rio - e foi lindo!

2. O que despertou seu interesse na Sérvia? Como você descreve sua conexão com o país?

O meu interesse na Sérvia, especificamente, rolou quando vim pra cá a 1a. vez: passei o ano de 2007 todo planejando não só a 1a. edição da Go East mas tb a minha 1a. viagem pros Bálcãs. Eu morria de vontade de conhecer pessoalmente a região e cultura que à qual eu e meus amigos estávamos nos dedicando tanto naquele último ano e meio. Quando finalmente cheguei a Sérvia (2 semanas depois da 1a. edição da Go East!), eu me apaixonei pelo país, pela cultura, pelas pessoas e etc. Um desses fenômenos que você não consegue explicar direito, mas senti uma ligação absurdamente forte com o país, com o povo e etc. Me senti totalmente em casa nesses primeiros 2 meses que passei na Sérvia e também nos poucos dias que passei na Bulgária. E desde então eu fico voltando pra cá sempre que posso, trabalho e economizo cada tostão que ganho no Brasil pra poder vir pra cá e ficar uns meses. Amo demais isso aqui!

3. Já imaginava que um dia tocaria no EXIT? Qual foi a sensação de tocar em um dos maiores festivais do mundo pela primeira vez? E pela segunda vez?

Nunca pensei! Foi demais quando recebemos o convite pra tocar no Exit ano passado, ficamos eufóricos! E tocar lá foi super bacana, o pessoal todo da produção do palco aonde tocamos (chamado Roots & Flowers) é suuuuper legal, família quase!

Essa segunda vez, vindo sozinha, um dos pontos altos foi justamente rever todo mundo da produção que conheci ano passado! E claro, discotecar lá sozinha dessa vez foi uma mega responsabilidade, mas foi lindo! Nos primeiros minutos eu tava bem nervosa, aquela coisa, você que fazer tudo lindo e direitinho... Mas instantes depois eu tava totalmente relaxada, como numa Go East no Rio. Me sentindo em casa mesmo!

4. O EXIT é exatamente como descrito em sites e revistas? Qual o ponto alto do festival? E o ponto fraco?

O festival é incrível, a começar pela locação: uma fortaleza construída no século XVIII pela imperatriz Maria Teresa da Áustria, na época em que o norte da Sérvia estava sob domínio Austro-Húngaro e o restante do país sob o poder do Império Turco-Otomano. Essa fortaleza fica no alto de uma pequena elevação, às margens do Rio Danúbio - dá pr imaginar?! O lugar é absolutamente lindo, de tirar o fôlego! Acho incrível pensar que hoje em dia milhares de pessoas assistem a centenas de shows em clima totalmente pacífico num local que já foi uma fortaleza em tempos de guerra! São mais de 20 palcos diferentes, de todos os estilos de música que você possa imaginar, para todos os gostos! Sinceramente, acho que as descrições que li em revistas não fazem juz ao que realmente é o festival! E o bacana é que o Exit tem um lado social muito forte também, de conscientização ambiental, inclusão social, várias palestras e "mesas redondas" rolam durante o festival e etc. Vejo o Exit meio que como um símbolo da "nova Sérvia", sabe, o país que a nova geração está tentando fazer acontecer e apresentar ao mundo.

Quanto a pontos baixos, eu não consigo pensar em nenhum. Talvez a poeira! O clima aqui é absurdamente seco e muito quente nessa época do ano, então o chão de (pouca) grama e terra batida da fortaleza vai pro espaço nas primeiras horas de shows e uma nuvem de poeira pesada sobe. Resultado: você chega em casa alguns tons mais escuro, de tanta terra grudada pelo corpo! Mas normal né, quem vai a festivais de verão na Europa vai pra se jogar mesmo e não tá nem aí pra poeira! Lavou, tá novo.

5. Como foi o processo de você ir tocar no EXIT?

O Exit foi o primeiro evento fora do Brasil no qual eu toquei. Ano passado, logo após o Exit, quando ainda estávamos aqui pelos Balcãs, fomos convidados pra tocar num outro festival, em Montenegro, chamado Eko Fest (que foi super bacana também!). Mas sei que o pessoal da produção desse palco do Exit, o Roots & Flowers, já conheciam há alguns anos o nosso trabalho com música dos Balcãs no Brasil, alguns são amigos de DJs balcânicos que já discotecaram e edições da festa no Rio. Essa cena de Balkan Beats é bem presente no mundo todo mas é relativamente pequena, então todo mundo se conhece e sabe do trabalho um do outro, de alguma forma!

6. Quais as principais diferenças entre os brasileiros e os sérvios em relação à sua música? Foi difícil encontrar público para este tipo de música no Brasil?

A diferença maior é que o que 'pro público brasileiro é o som novo, exótico, pra eles aqui é corriqueiro. Não o Balkan Beats em si, mas o som folk que originou a vertente "beats" é coisa que eles têm na TV aqui todo dia, em vários canais, vários rádios, shows e etc. E é uma relação que eles têm aqui com esse tipo de música folclórica é uma coisa meio "ame-o ou deixe-o", bem controversa. Mais ou menos como a relação que temos no Brasil com música folclórica também: alguns adoram e outros acham cafona, antiquado. Mas a reação geral aqui é de espanto quando eu conto que tipo de som a gente dicoteca na Go East aí no Brasil, todos acham surreal que o pessoal daí conheça a música folclórica daqui e que curtam isso a ponto de ir a festas de música balcânica.

No Rio, quando começamos a fazer a Go East, foi total um tiro no escuro: não fazíamos ideia do que iria acontecer, se teríamos 40 ou 400 pessoas indo a festa. Demos sorte e acertamos na divulgação também, e tivemos um público de cerca de 400 pessoas na 1a. edição, que foi muito além de qualquer expectativa nossa!

Hoje em dia, depois de mais de 20 edições da festa no Rio e outras 4 em SP, já conhecemos mais nosso público, sabemos aonde essas pessoas estão e onde devemos divulgar. Com o tempo vai ficando mais fácil um pouco!

7. O que significa para você a presença de uma DJ brasileira em um festival musical tão importante na Sérvia? Você foi bem recebida?

Super bem recebida! Todo o pessoal do palco onde tocamos, o "Roots & Flowers" é um amor! Desde o ano passado, quando toquei lá pela 1a. vez, como parte do Go East Combo (que incluía minha sócia, a Sol, e o DJ de São Paulo Andrei Moyssiadis, parceirão nosso!) esse povo todo da produção virou amigo nosso! Um dos pontos mas legais de voltar esse ano foi justamente rever todo mundo da produção, colocar a conversa em dia e etc. E ser a única brasileira tocando no festival esse ano foi uma honra, representar a Go East no Exit então, nem se fala!!

8. O que te motiva a continuar atuando na produção da festa Go East?

Paixão mesmo! Eu adoro muito a festa, tanto que eu e a Sol normalmente nos referimos à Go East como "nosso filhote", haha. Mesmo morando aqui em Belgrado agora eu continuo na produção tanto quanto antes, cuidando da parte mais "online" e "midiática" do trabalho. Não vivo mais sem a Go East!

9. Como se sente agora que a festa já virou uma grande sensação no Rio de Janeiro?

Eu e a Sol trabalhamos duro o tempo todo pra fazer a Go East continuar sendo o que é hoje, então pra gente é a melhor sensação do mundo! Cansa, a gente se estressa e se descabela de vez em quando, mas vale muito a pena! Orgulho da nossa festa-filhote!

10. Como você vê a música e a cultura sérvia daqui a 5 anos?

Acho que a tendência é que cada vez mais gente passe a conhecer e a apreciar esse tipo de música e mais do que isso, apreciar e querer saber mais sobre o lugar de onde isso vem. É envolvente, é difícil você encontrar alguém aí no Brasil, por exemplo, que não escute o som daqui de não curta pelo menos um pouco. Não sei se em 5, mas acredito que em uns 10 anos a Sérvia consiga refazer a imagem ruím que ainda tem atualmente, mundo afora - e acho que a música pode ser meio incrível pra isso, é uma linguagem universal, faz bem pra alma!

11. Quais são seus planos de trabalho para o futuro?

Quero realmente me especializar e trabalhar com produção mesmo: festas, shows, festivais e etc. É o que eu mais amo fazer! A melhor sensação do mundo é ver o evento pelo qual você trabalhou por semanas ou até meses acontecer, tomar forma, e ver um monte de gente se divertindo com aquilo tudo. É lindo, amo a indústria do entretenimento!! Amo discotecar também, mas no futuro me vejo mais como produtora full-time e DJ nas horas vagas.

12. Para finalizar, deixe um recado para aqueles que nunca foram à Sérvia!

VEM, GENTE! Ah sério, recomendo muitíssimo a todos que, se tiverem a oportunidade, visitem não só a Sérvia mas toda a região, que é linda culturalmente riquíssima. O "lado B" da Europa tem muito a oferecer!

#entrevista #goeast

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