sábado, 7 de abril de 2012

A polêmica do filme "Na Terra do Sangue e do Mel"

Polêmica. Esta é a palavra que melhor resume o "Na Terra do Sangue e do Mel" ("U Zemlji Krvi i Meda", em sérvio), primeiro filme dirigido por Angelina Jolie. Trata-se de uma história de amor entre uma bósnia muçulmana que é levada para um campo de concentração e um soldado sérvio durante a Guerra da Bósnia (1992-95). Antes fosse só isso. Acusado de ser anti-sérvio, o filme, aclamado pelo público na Bósnia, foi motivo de revolta e muito desgosto na Sérvia. 

Cena do filme "Na Terra do Sangue e do Mel"
Lançado apenas em alguns cinemas no dia 23 dezembro de 2011 nos Estados Unidos, "Na Terra do Sangue e do Mel" teve sua estreia na Europa no Festival de Berlim, no dia 12 de fevereiro deste ano, e chegou à Bósnia no dia 14 do mesmo mês. A cerimônia para a primeira exibição em Sarajevo contou com a presença da própria Angelina Jolie, de seu marido, Brad Pitt, e de 5 mil espectadores que a ovacionaram ao final do filme. Ela, com lágrimas nos olhos, agradeceu ao público em bósnio e explicou o quanto este filme significa para ela e como deseja que o mundo assista o filme e veja o maravilhoso país que é a Bósnia. Mais tarde, declarou aos repórteres:
"O filme é sobre temas universais - conflitos, tortura, violência a mulheres e a resposta da sociedade. Este filme não julga, não é anti-sérvio. Eu acredito que seu foco principal - que é a necessidade de intervenção e a necessidade do mundo de por fim a atrocidades enquanto elas acontecem - é muito oportuno, especialmente com as coisas que estão acontecendo na Síria hoje. (...) Os sérvios são espertos e conseguirão ver a diferença entre a verdade e algo que é imposto sobre eles. Eles verão que o filme é arte." - Angelina Jolie
Angelina Jolie e Brad Pitt dando autógrafos em Sarajevo
Enquanto isso, na estreia do filme em Belgrado, no cinema do shopping Delta City, no dia 23 de fevereiro, compareceram apenas 12 pessoas, sendo que a maioria foi embora antes do final do mesmo. Ao sair da sala de exibição, as reações eram diversas. Uma moça saiu com vontade de vomitar, um jovem declarou que "vergonha maior que ter apenas 12 pessoas na estreia é o fato do filme ter sido feito" e um senhor de idade, que ficou até o final, não quis comentar, sob o argumento de que ele sabe mais sobre o que aconteceu lá do que a Angelina.

Revolta tomou conta também da sala do cinema Rolan, em Moscou, onde ativistas da associação Ruski Obraz interromperam a exibição do filme. Foi erguida uma faixa com uma foto da Angelina Jolie com sangue nos lábios e os dizeres: "Matar sérvios? Não, não vamos escutar". Logo no início da projeção, começaram a gritar: "Parem de matar sérvios", "Parem de mentir", "Sérvios - irmãos" e "Bósnia - terra sérvia". Detalhe: na sala estavam presentes apenas 15 pessoas ao todo. Ao serem perguntados sobre a razão do motim, responderam que o filme mente e não passa de uma propaganda contra os sérvios na Bósnia. Algo parece estar errado, não?

De fato, a Organização das Famílias de Soldados Capturados e Mortos, a Aliança dos Prisioneiros de Campo e o Centro Republicano de Investigação de Crimes de Guerra (todas organizações sérvias) publicaram um comunicado conjunto, em iniciativa internacional, acusando Angelina Jolie de discriminar as vítimas sérvias e equipará-las com criminosos. 

Mas qual é a razão de tudo isso?


"Na Terra do Sangue e do Mel" é repleto de cenas chocantes e perturbadoras. Nos primeiros 20 minutos de filme já temos vários homens civis separados de suas famílias e fuzilados de forma covarde, uma mulher estuprada por um soldado em público e pedestres tomando tiros sem motivo. Daí em diante, as atrocidades só pioram... Tem até mesmo uma cena na qual um bebê é morto arremessado pela janela de um prédio por um soldado. 

O grande problema é que, em todo o filme, todos os criminosos de guerra são sérvios e todas as vítimas civis são muçulmanas. Conforme constatado pela Organização de Iniciativa Internacional responsável pelo monitoramento de práticas anti-sérvias, "os sérvios são mostrados apenas como aqueles que conduzem as pessoas aos campos de concentração, atacam a Cruz Vermelha, matam pedestres aleatoriamente e até jogam bebês de prédios". De acordo com a análise do filme feita pela Organização, ao todo 96 mulheres muçulmanas são vítimas, 208 civis muçulmanos são assasinados, e nenhum sérvio. As 46 mulheres muçulmanas que são levadas para o campo de concentração são espancadas, estupradas e humilhadas. Além disso, é apresentado um total de 49 criminosos de guerra sérvios e nenhum muçulmano.

Cena do filme "Na Terra do Sangue e do Mel"
Milivoje Ivanišević, presidente do Instituto de Pesquisa do Sofrimento Sérvio no Século XX, lembrou em depoimento que não somente sérvios participaram da guerra na Bósnia e Herzegovina, mas também muçulmanos e croatas. Segundo a historiadora e antiga diretora do Centro de Documentação Comissariado para Refugiados, Dušica Bojić, o filme enfatiza claramente o clima anti-sérvio.

Reparem que ninguém diz que tais atos desumanos não ocorriam, apenas questiona-se por que sérvios são mostrados exclusivamente como vilões e bósnios exclusivamente como vítimas. Em declaração ao site Vesti Online, uma sérvia que foi estuprada no período da Guerra da Bósnia e não quis se identificar, falou que sente muito por todos aqueles que sofreram, mas sente mais ainda quando vê que algumas vítimas são lembradas e respeitadas, enquanto outras são esquecidas.

Uma grande ironia é que a cerimônia de estreia do filme na Bósnia foi realizada na Arena Zetra, em Sarajevo, local onde foi instalado um campo de concentração bósnio no período de guerra e muitos sérvios sofreram exatamente o que os bósnios sofrem em "Na Terra do Sangue e do Mel".

Apesar de tudo, o filme conseguiu bastantes reviews positivos mundo afora de jornais como o Telegraph e o New York Times e sites como o Rotten Tomatoes e, inclusive, rendeu à Angelina Jolie o Stanley Kramer Award, prêmio dado a produtores cujo trabalho "ilumina problemas sociais provocativos de uma forma acessível e elevadora". No entanto, no site IMDb, o filme está com uma nota de 4.2/10 e pode-se ler depoimentos interessantes como este:
"Eu sou da Bósnia e Herzegovina e não me considero pertencente a nenhum 'lado'. Porém, posso dizer que este filme causou grande polêmica antes mesmo de ficar pronto. É ridículo que a Sra. Jolie esperava trazer catarse em um ambiente tão dividido onde literalmente tudo é usado para manipulação política, dependendo de qual ponto de vista você vê. O filme só deu estímulo a novas polêmicas e divisões." - Usuário bósnio do site IMDb
Com isso, pode-se concluir que o filme pode ser considerado bom, mas somente por pessoas capazes de ignorar completamente a dura e frágil realidade geopolítica da região. Se a Angelina Jolie tivesse estudado profundamente a história dos Bálcãs como diz que estudou, ela entenderia que um filme como este jamais deveria ser feito. Ela não pode querer abrir os olhos do mundo para um problema utilizando um método que denigre a imagem de outro país que foi vítima do mesmo problema! Seguindo por este caminho, o próximo filme dela naturalmente mostrará como os EUA levaram o Kosovo à "independência" através de parcerias com líderes de guerrilhas e chefes do narcotráfico e bombardeios criminosos que mataram milhares de pessoas. Porém, claro, vai dizer que o filme não é anti-EUA.

Em uma análise interessante do escritor croata Boris Dežulović, é relatado que o filme serviu como uma espécie de "certificado internacional de vítima" e que a posição de vítima que a Bósnia tem mundialmente se encaixa perfeitamente nos interesses das elites políticas, culturais e religiosas do país, porque, de acordo com elas, o significado da sua existência está embutido na vitimização. Pensam que, se a Bósnia e Herzegovina deixarem de ser vítima, não terá por que defendê-las, tampouco lutar pelos interesses da nação. Assim, as elites não sobreviveriam e sobraria a verdadeira Bósnia, reconhecida não por ter sido vítima, mas sim por suas belezas naturais, por seu povo hospitaleiro e sua rica e diversa cultura, digna do país com maior diversidade étnica dos Bálcãs. Angelina Jolie disse que queria que as pessoas vissem em "Na Terra do Sangue e do Mel" o extraordinário país que é a Bósnia, mas, pelo visto, escolheu a forma errada de fazer isso - muito errada. Contudo, confirmando o ponto de vista apresentado anteriormente, o líder da comunidade islâmica do país, Mustafa Cerić, se referiu ao filme como "a melhor coisa que aconteceu à Bósnia desde o Acordo de Dayton".

Para fechar, deem uma olhada neste post do site 9GAG, que diz o seguinte:
"Estas 11.541 cadeiras representam os 11.541 civis muçulmanos, católicos, ortodoxos, judeus e ateus mortos em Sarajevo de 06/04/1992 a 25/11/1995. (...) É preciso que todos saibam que na guerra não tem vencedor nem perdedor, só tem pais sem suas crianças, crianças sem seus pais... Todos perdem."
O filme está disponível na íntegra em inglês no Youtube, basta clicar aqui para assistir.

Pozdrav!